20 agosto 2011

O sofrimento do jovem Werther

 Trexos da carta do jovem werther.


   Maio 10


Minha alma inunda-se de uma 

serenidade maravilhosa, 

harmonizando-se com a das doces 

manhãs primaveris que 

procuro fruir com todas as minhas 

forças. Estou só e 

abandono-me à alegria de viver nesta 

região criada para as 

almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo

  mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria

existencia, que esqueci a minha arte. Neste momento, 

ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no 

entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando em torno de mim

os vapores se elevam do meu vale querido, e o sol a pino 

procura devassar a impenetrável penumbra da minha

floresta, 

mas apenas alguns dos seus raios conseguem insinuar-se no 

fundo deste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob

os arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de 

plantazinhas; quando sinto mais perto do meu coração a

  formigar de um pequeno universo escondido embaixo das 

ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis 

cuja variedade desafia o observador, e sinto a presença do 

Todo-Poderoso que nos criou à sua imagem, o sopro do

Todo-Amante que nos sustenta e faz flutuar num mundo de

  ternas delícias ... ; então, meu amigo, é quando o meu olhar

amortece, e o mundo em redor, e o céu infinito adormecem

inteiramente na minha alma como a imagem da bem-amada;

muitas vezes, então, um desejo ardente me arrebata e digo a 

mim mesmo: "Oh! se tu pudesses exprimir tudo isso! Se tu 

pudesses exalar, sequer, e fixar no papel tudo quanto palpita

dentro de ti com tanto calor e plenitude, de modo que essa

obra se tornasse o espelho de tua alma, como tua alma e o

espelho de Deus!. . . " meu amigo! ... Este arroubamento me 

faz desfalecer; sucumbo sob a força dessas visões magníficas.


 Agosto, 30



Infeliz! Não passas de um insensato! Por que. procuras 

enganar-te a ti mesmo? De que te servirá essa paixão furiosa e 

sem limites?... Não posso dirigir minhas preces senão a ela; 

nenhuma outra

figura, a não ser a dela, se apresenta à minha imaginação, e o 

mundo que me cerca, só o percebo quando tem com ela 

alguma relação. Só assim consigo fruir algumas horas de 

felicidade. . . até o

momento em que é preciso que me retire de junto! ó 

Wahlheim, se você soubesse até onde me leva o coração! 

Quando Passo junto dela duas ou tres horas, alimentando-me 

da sua presença, das suas

maneiras, da expressão celestial das suas palavras, pouco a 

pouco todos os meus sentidos adquirem uma tensão 

excessiva, meus olhos deixam de enxergar, mal consigo ouvir, 

sinto como que a mão

de um assassino constringindo-me a garganta. Batendo 

desordenadamente, meu coração procura atenuar a angustia 

dos meus sentidos, mas apenas consegue aumentar a minha 

perturbação ...

Wahlheim, quantas vezes, então, nem chego a saber se vivo 

neste mundo! E, a menos que (o que sucede com freqüencia) a 
tristeza me empolgue por completo, e Carlota me conceda o

humilde

conforto de desafogar meu coração oprimido, banhando suas 

mãos nas minhas lágrimas, é preciso que eu, me afaste, que

saia e vá errar pelos campos, bem longe! Agrada-me, então, 

galgar uma montanha a pique, embrenhar-me através do 

bosque impenetrável, ferindo-me nas armadilhas de

caça, dilacerando-me nos espinheiros. Só então me sinto um 

pouco aliviado! Um pouco, que digo eu? Quantas e quantas 

vezes, quando me estiro no caminho prostrado de fadiga e de 

sede, ou
quando, alta noite, enquanto a lua resplende sobre a minha 

cabeça, sento-me sobre um tronco de árvore no seio da

floresta, para aliviar meus pés doloridos, esmoreço na 

meia-luz duvidosa da
espessura e durmo um sono fatigante! ó Wahlheim, a 

permanencia numa célula solitária, o cilício e o cíngulo de 

pontas de ferro são o consolo a que minha alma aspira! ... 

Adeus! Só veio um fim a

esses tormentos: o tumulo .










                                              Johann Wolgang Goethe
 




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