Maio 10
Minha alma inunda-se de uma
serenidade maravilhosa,
harmonizando-se com a das doces
manhãs primaveris que
procuro fruir com todas as minhas
forças. Estou só e
abandono-me à alegria de viver nesta
região criada para as
almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo
mergulhado no tranqüilo sentimento da minha própria
existencia, que esqueci a minha arte. Neste momento,
ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no
entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando em torno de mim
os vapores se elevam do meu vale querido, e o sol a pino
procura devassar a impenetrável penumbra da minha
floresta,
mas apenas alguns dos seus raios conseguem insinuar-se no
fundo deste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob
os arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de
plantazinhas; quando sinto mais perto do meu coração a
formigar de um pequeno universo escondido embaixo das
ervinhas, e são os insetos, moscardos de formas inumeráveis
cuja variedade desafia o observador, e sinto a presença do
Todo-Poderoso que nos criou à sua imagem, o sopro do
Todo-Amante que nos sustenta e faz flutuar num mundo de
ternas delícias ... ; então, meu amigo, é quando o meu olhar
amortece, e o mundo em redor, e o céu infinito adormecem
inteiramente na minha alma como a imagem da bem-amada;
muitas vezes, então, um desejo ardente me arrebata e digo a
mim mesmo: "Oh! se tu pudesses exprimir tudo isso! Se tu
pudesses exalar, sequer, e fixar no papel tudo quanto palpita
dentro de ti com tanto calor e plenitude, de modo que essa
obra se tornasse o espelho de tua alma, como tua alma e o
espelho de Deus!. . . " meu amigo! ... Este arroubamento me
faz desfalecer; sucumbo sob a força dessas visões magníficas.
Agosto, 30
Infeliz! Não passas de um insensato! Por que. procuras
enganar-te a ti mesmo? De que te servirá essa paixão furiosa e
sem limites?... Não posso dirigir minhas preces senão a ela;
nenhuma outra
figura, a não ser a dela, se apresenta à minha imaginação, e o
mundo que me cerca, só o percebo quando tem com ela
alguma relação. Só assim consigo fruir algumas horas de
felicidade. . . até o
momento em que é preciso que me retire de junto! ó
Wahlheim, se você soubesse até onde me leva o coração!
Quando Passo junto dela duas ou tres horas, alimentando-me
da sua presença, das suas
maneiras, da expressão celestial das suas palavras, pouco a
pouco todos os meus sentidos adquirem uma tensão
excessiva, meus olhos deixam de enxergar, mal consigo ouvir,
sinto como que a mão
de um assassino constringindo-me a garganta. Batendo
desordenadamente, meu coração procura atenuar a angustia
dos meus sentidos, mas apenas consegue aumentar a minha
perturbação ...
Wahlheim, quantas vezes, então, nem chego a saber se vivo
neste mundo! E, a menos que (o que sucede com freqüencia) a
tristeza me empolgue por completo, e Carlota me conceda o
humilde
conforto de desafogar meu coração oprimido, banhando suas
mãos nas minhas lágrimas, é preciso que eu, me afaste, que
saia e vá errar pelos campos, bem longe! Agrada-me, então,
galgar uma montanha a pique, embrenhar-me através do
bosque impenetrável, ferindo-me nas armadilhas de
caça, dilacerando-me nos espinheiros. Só então me sinto um
pouco aliviado! Um pouco, que digo eu? Quantas e quantas
vezes, quando me estiro no caminho prostrado de fadiga e de
sede, ou
quando, alta noite, enquanto a lua resplende sobre a minha
cabeça, sento-me sobre um tronco de árvore no seio da
floresta, para aliviar meus pés doloridos, esmoreço na
meia-luz duvidosa da
espessura e durmo um sono fatigante! ó Wahlheim, a
permanencia numa célula solitária, o cilício e o cíngulo de
pontas de ferro são o consolo a que minha alma aspira! ...
Adeus! Só veio um fim a
esses tormentos: o tumulo .
Johann Wolgang Goethe